O brado retumbante, ouvido com distorção | Palpitando



14/04/2015 | Palpitando

Por João Paulo Modesto



O brado retumbante, ouvido com distorção



Depois da primeira onda de protestos contra a Presidente Dilma Rousseff passou, o dia 12 de abril trouxe novas manifestações. Pelo visto aqueles que são favoráveis continuam animados com a possibilidade de deposição ou renúncia da presidente.


Confesso que estou confuso quando ao que realmente está sendo reivindicado, há os que bradam pelo impeachment, outros pela renúncia e os mais radicais rogam pela intervenção militar. E todos têm em comum, a meu ver, a ignorância de um fato principal: se precisamos realizar todas esta movimentação, porque elegemos nossos deputados?


A estruturação de nossa república é muito clara quanto os níveis que uma democracia deve obedecer para que a vontade do povo seja soberana e manifestada nas decisões de um governo. Os representantes do poder legislativo são aqueles que possuem ligação direta com os eleitores, portanto, quem devem nos ouvir quando dizemos (neste caso bradamos).


Eu sei, meu pensamento nunca pareceu tão utópico, no entanto, utopia mesmo é pensar que poderemos conseguir mudanças significantes por simplesmente nos reunirmos em grande número de pessoas sem foco e com muito entusiasmo num dia de sol no meio de uma via pública. Não desprezo a necessidade e importância da indignação popular, apenas discordo da efetividade destes acontecimentos uma vez que ignoramos que nós “contratamos” pessoas para falar em nosso nome e simplesmente aceitamos quando o que elas dizem não passa perto do que pensamos.


Não se convençam (ou praguejem) por agora, analisem primeiramente os resultados obtidos pela sequente onda de manifestações deste grande (e ainda incerto) número de brasileiros. É muito óbvio que o grito das ruas foi ouvido no planalto, algumas mudanças foram anunciadas, no entanto o fato real é que o público que demonstrou indignação não fez mais do que alimentar o maior de todos os nossos chagas, onde nossa democracia sangra desoladamente: o poder legislativo. Nossos deputados federais – sinto asco neste momento – utilizaram da pressão sofrida pela presidente e, disfarçados de representantes do povo, aumentaram suas redes de influência, barganha e poder de negociação em benefício próprio. Ou alguém consegue apontar uma mudança positiva em favor do povo brasileiro?


E os efeitos desta eterna negociação vão ainda mais além, o Projeto de Lei 4330/2004 (este merece um artigo exclusivo), que trata da terceirização em todos os níveis da administração pública e privada e claramente suprime os direitos dos trabalhadores foi ressuscitado sob o intuito de modernização do sistema de gerenciamento público e fim do inchaço da máquina pública com contratos. A realidade é bem diferente, a aprovação deste projeto implica na liberdade para negociações corruptas e contratação indiscriminada sem que o governo atuante seja diretamente culpado pela gestão destes servidores.


Dito isto, voltemos à questão principal: o que realmente os manifestos têm contribuído para a evolução da ética em nossa política?


Rogério Chequer, porta-voz do movimento “Vem pra Rua”, demonstrou certa lucidez em sua entrevista ao programa Roda Viva falando em como o impeachment não se apresenta como uma solução palpável ou viável. Mas, nem de longe conseguiu acompanhar o raciocínio da roda de entrevistadores, principalmente da jornalista Daniela Lima (
@_LimaDaniela) que tentava mostrar o quanto a funcionalidade e objetividade deste movimento deveria estar voltado ao poder legislativo e não o executivo.


Em minha singela opinião, os manifestos populares atacam apenas uma das cabeças da serpente e que neste momento é a mais frágil delas. É certo ainda que o fazem por uma questão muito mais cultural do que de ignorância. Somos neste momento movidos pela noção intrínseca de que mais uma vez derrubaremos nosso rei – rainha, neste caso. O problema é que este pensamento nos faz desesperadamente atrasados na história, a era das revoluções contra a monarquia passou e deixou claro que um novo imperador/ditador sempre ascenderá até que povo entenda e saiba tomar o poder que lhes pertence, de maneira organizada.


Neste emaranhado de gritos e indignações dissociadas e sem ritmo eu prefiro parabenizar a CUT pelo manifesto contra a PL 4330/2004. No mais, aguardo que todas as indignações sejam voltadas ao ponto de origem da grande parte de nossos problemas políticos, o Legislativo.





  João Paulo Modesto é Funcionário Público, estudante de Administração.
entre em contato: 
facebook/modestojp  @modestojp  


 

 

 

 

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